Texto muito interessante sobre religião
POR QUE DIA SANTO É FERIADO?
BOSTON - Hoje é feriado no Brasil. Mais um. E, mais ainda: feriado
religioso!
É difícil explicar a quem não é brasileiro o número de feriados existentes. Pior ainda se for considerado que, em muitos casos, há o feriado prolongado, em que se faz a "ponte", quando o feriado coincide com uma terça ou uma quinta feira. É possível até que alguns adotem um "pontilhão", emendando a folga de quarta feira até domingo, com o feriado de hoje.
Àqueles que estão chegando agora, tudo isso leva a crer que o Brasil é um país muito rico. Tão rico que se dá ao luxo de paralisar quase todas as suas atividades econômicas em dezenas de dias, durante o ano.
No entanto, a realidade é bem outra: examinando-se o ranking de feriados por países no mundo, é fácil observar que o Brasil está na lista dos países mais pobres e incluído entre aqueles onde existe o maior número de feriados. São os paradoxos que ninguém de bom senso explica.
O mais complicado é que o feriado de hoje é religioso. Enganam-se aqueles incautos que supõem que o que se comemora é o Descobrimento da América, ou Dia da Criança, também hoje festejados.
Dizem os juristas - e esta é uma área em que não me aventuro - que teoricamente o Brasil é um Estado laico, onde existe total separação entre a Igreja e o Estado. Na prática, no entanto, como diz a gíria, a teoria é outra.
É um Estado laico, mas o feriado religioso que hoje se comemora foi instituído por lei.
Revela-se, portanto, que a Igreja Católica continua com mais poder no Brasil do que os inocentes imaginam, quando falam em separação entre Estado e Igreja. É sabido que alguns invocam o costume, para justificar. Mas, pelo que eu sei, o costume, o que os doutos chamam de "direito consuetudinário" hoje em dia só é moda para os súditos da Rainha da Inglaterra.
Mas, por falar em Igreja, imiscuir-me no assunto significa arrostar a ira dos fiéis cruzados, que defendem a Igreja Católica, com armadura e lança, montados em corcel branco, como as Cruzadas combatiam os infiéis em defesa de Jerusalém. Ou os fanáticos da Igreja Universal que, vestidos nos sacos em que carregam o dinheiro do dízimo e algo mais, não admitem a crítica. Foi o que ocorreu recentemente, quando comentei aqui a ânsia de poder e a ganância de riqueza das igrejas.
Os católicos dizem que a riqueza que a Santa Sé possui está nos templos e que é a Igreja Católica que preserva os valores éticos e morais que ainda existem. Fiquei confuso! Será que o católico fervoroso quando fala em "valores éticos e morais" estaria se referindo à ação dos padres pedófilos, responsáveis pelos escândalos que abalaram as estruturas da Igreja, recentemente e determinaram a queda vergonhosa do Cardeal de Boston, humilhado e obrigado a prestar depoimento perante a Justiça Comum, para logo depois ser recambiado às pressas para o Vaticano? E, quanto às riquezas, será que não sabe que recentemente a Igreja Católica foi obrigada a vender o paraíso do luxo, como era conhecido o suntuoso Palácio Episcopal daqui, fechou
igrejas e está vendendo os prédios, tudo para pagar os acordos milionários com as centenas de vítimas dos padres pedófilos? São acordos que a Igreja fez para encobrir a ação criminosa dos sacerdotes que abusaram sexualmente de jovens. Não se diga que a Igreja daqui é outra. A Igreja Católica sempre pregou que é una, universal e indivisível, igual no mundo inteiro. Haja, portanto, moral e ética...
Os fanáticos da Universal acusaram-me de infiel, por desconhecer os milagres que lá ocorrem, como "um surdo ouvir, um cego ver, um coxo andar, um canceriano (sic) de intestino que vomita fezes se curar", como relatou um leitor em seu comentário, na semana passada.
Aí está a salvação do Brasil. Com o poder milagroso que a Igreja Universal tem, como diz o seu seguidor, é hora de colocar o bispo Edir Macedo na Presidência da República e aquele bispo ex-deputado, que renunciou para fugir da cassação, no Ministério da Saúde. Poderiam carregar as malas de dinheiro que transportam em aviões particulares, para melhorar a economia do país. Um resolveria todos problemas do Brasil e o outro milagrosamente conseguiria curar todos os enfermos. Ainda sobraria dinheiro para construir hospitais.
Mas, voltando ao feriado de hoje, dia santo, vale relembrar que, há pouco mais de uma década, se procurou colocar o Brasil na trilha dos outros países, pelo menos parcialmente. Sim, em parte, considerando que na grande maioria dos países, onde há a separação entre Estado e Igreja, não existe feriado religioso.
O que se pretendeu fazer no Brasil foi adotar a prática de se comemorar os feriados - exceto datas significativas, como o dia da Independência - sempre às segundas feiras. Evitava-se a semana quebrada, evitava-se o final de semana prolongado de quatro dias ou mais e, principalmente, se evitava o imenso prejuízo que o Brasil enfrenta com as comemorações dos feriados, notadamente os religiosos.
No entanto, a "lei não pegou". Ou melhor, foi derrubada por pressão da Igreja Católica. Os padres, nos púlpitos, incitavam os fiéis à desobediência à regra legal, insuflando-os a comemorarem os dias santos nas datas em que constam no calendário e não às segundas feiras, como a lei mandava.
No final, "a emenda foi pior do que o soneto": muitos passaram a comemorar o feriado na segunda feira e também na data em que no calendário consta como dia do santo. Dupla comemoração e prejuízo maior.
O que se comemora hoje é o que se denominou dia da Padroeira do Brasil. Ora, padroeiro, segundo o Dicionário Houaiss, é "aquele que intercede perante Deus". É uma figuração mística, típica criação da Igreja Católica.
Por que o Brasil tem que se submeter às diretrizes dos padres, bispos, cardeais e do papa?
Além de se caracterizar uma interferência da Igreja em assuntos do Estado, decretando-se feriado o dia da padroeira, há uma discriminação contra as demais religiões.
A discriminação é tanta que, se um empresário não católico, xintoísta, por exemplo, resolver abrir a sua loja em dia de feriado religioso católico, certamente será punido, aplicando-se contra ele uma multa e obrigando-o a pagar horas extras aos seus empregados. Ele poderia dizer: o que eu tenho com dia santo católico?
Ora, para manter o que diz a Constituição quanto à igualdade entre os brasileiros, deveriam ser comemorados, também com feriados, os dias santificados nas outras religiões. Por exemplo, o Lebaran, que se segue ao mês de jejum, obrigatório para os muçulmanos. Ou Yom Kippur, que os judeus comemoram nesta semana. Existem feriados do hinduismo e, principalmente, considerando o grande número de adeptos no Brasil, deveriam ser feriados, também, os dias sagrados do candomblé ou da macumba, como o Dia de Iemanjá.
Neste caso, aliás, para os que militam na área, seria até uma dupla comemoração, considerando- se que se louva Iemanjá no dia 8 de dezembro, chamado de "Dia da Justiça".
Fonte: Ultima Instancia [i]
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